quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Título em vermelho.

Estava pensando em um texto para retomar as atividades desse blog. Sobre o que escrever? Lembro de quando escolhemos o título deste site -- e como foi difícil escolher -- que tinha por finalidade expor um sentimento mútuo. Enfim tínhamos chegado a um: falanges canibais. Falanges que devoram a caneta ou o lápis, ou as palavras.
Eu tinha naquele tempo a sensação que poderia escrever sobre quaisquer coisas, a sensação de carregar no olho aquela sensibilidade para com o cotidiano. Transformar asfalto em linhas, pés em palavras, pessoas em contos, a rua em uma história. O que é contar uma história? O que é escrever sensivelmente sobre o perceptível? Ingenuamente pensei que era traduzir em palavras aquilo que era posto em imagens, em palavras que não possuíam o teor de descrição é claro, mas ainda assim traduziriam.
Não era isso.
Falanges canibais... vejo que não é à toa que concordei com o nome. Canibal é uma palavra cruel, fala daquilo que se alimenta da própria substancia. Insetos que comem insetos, animais que comem animais, humanos que comem humanos. As falanges só comeriam o lápis, o papel, ou as palavras, se encontram lá em abundancia a própria substancia, a própria carne.

De todo o escrito só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com o seu sangue. Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espírito. (Zaratustra)

Aí está a dificuldade de escrever com tais falanges. Com elas se abre a carne e ainda mostra seu sangue. Nem todo sangue que sairá é daquele vermelho forte, daqueles que alguns vestem em roupas, dirigem em carros ou beijam em bocas. Há o risco de usar o sangue para escrever e as palavras saírem azuis, pretas; pastosas ou finas demais. Há o risco de não ter sangue, de ficar entupido nas veias, ou sangue demais a rasgar o papel.

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