segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A Mulher e o Mar


     Oh mar, por que tiveste que me abandonar? A ti hoje só minhas lágrimas vertem, traçando sobre minha face lânguida Estige e Aqueronte, d’onde navegas flácida apenas minh’alma sem moeda de prata ou remo. Temo por ela, tão delicada, a queda em tuas tormentas, visto que tua lembrança já sorrisos e viço me salga. É o que de ti me resta, o brasido de teu sal e farsa, pavor e paixão, brandura quimérica.

     Que me tomes então, me leva, meu corpo já antes era tua morada, te restas tomar os pulmões. Isso, ousa, me embebe, em teu âmago me encherei de vida, farei-a prosperar. Talvez lá pequenos animais me façam fruto ou berço, tomando-me até os ouvidos que já tanto tomara com teu pranto raso, lembro, só eu o ouvia enquanto choroso investia em vão sobre a terra, assistia, para catar desta tudo que nela perdera, cada pedra impar, cada concha para tantos outros frívola. E tudo que te devolvera oh, ingrato mar? Tantas as joias que me recusara a carregar nos bolsos, valor para mim tinham no fundo de tuas águas. Teus abismos seriam tão mais profundos não fossem minhas mãos tão dedicadas, saiba, com que te faltei então? Já não sei. Eis ingrato afinal.

     Decida-te então ou decido eu, é hora, me engoles ou tentarei engoli-lo eu, te beberei com a sede de milhares de teus náufragos nauseabundos, queime-me os olhos ou cinda-me a boca, o tentarei beber, farei de cada soberba gota tua sorvida minha própria, mar, e caso não consigas te expurgar, o tomarei, o desbravarei à braço porque ainda te amo e tanto o cobiço, então machuca-me o corpo enquanto podes antes que veja, amanhã, o sol posto emergir no oeste, de minha vontade indômita.


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