quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A noite que nos falta

Estória simples. Homem e mulher, um ao lado do outro, caminhando na beira da noite. A sós, cultivam um silêncio já de alguns minutos.



— Acho que são esses momentos.
— O quê?
— Esses assim.
— Hum? Do que você ‘tá falando?
— Sabe, tem momentos que simplesmente não poderiam ser desperdiçados. São nessas horas que eles acontecem. Imagine comigo, imagine uma noite, após um dia longo. Você está em casa, ou em algum outro lugar confortável, tranquilo, esperando nada; talvez o sono. Mas nesse intervalo não há nada a se fazer, nada de imediato. Ah!, você está só, esqueci de dizer. Além de não ter o que fazer, não tem com quem falar, nem uma viva alma. O telefone não toca e você não tem pra quem ligar pois já é tarde; não seria educado. Imagine essa cena que acabei de lhe dizer. O que você acha?
— Realmente não sei aonde você quer chegar.
— Vamos, faça um esforço! É tão difícil se imaginar nessa situação? Pois vou lhe dizer. Quando isso acontece, eu sinto que tudo foi um grande desperdício, as coisas perdem o sentido; falo das coisas banais, aquelas do cotidiano que se qualquer um parasse por alguns minutos e se esforçasse não entenderia a lógica, nem o motivo, do por que continuam com aquilo. Sério, não me olhe assim, prometo-te que não será tão triste. Veja bem, são nesses momentos azuis que você invariavelmente pensa em coisas. Coisas, sabe? Aquilo que você fez durante o dia de ontem, de hoje... Não! Não só isso. Droga, olhe pra essa noite, ela não te instiga? Não te alimenta um desejo autêntico, verdadeiro? Pois sempre que a vejo assim, tão noturna, tão calada, minha vontade é de preenchê-la com algo bom. Penso em fugir. Você nunca? Vamos!, não me diga que não quer fugir agora?
— Fugir? Mas fugir pra onde? E pra fazer o quê?
— Pouco importa! A vontade de fugir nunca foi acompanhada de um lugar (a)final. Não conheço quem deseje fugir para o Chile, ou para Belo Horizonte, ou pro bairro vizinho, pelo menos não necessariamente. A vontade de fugir é órfã e nômade. Pensando bem, às vezes nem acho que fugir seja a palavra certa. Não, não é. Tenho outra melhor agora. Não é fugir de algo, mas a paixão de começar alguma coisa. Como se de repente a noite fosse nossa, a vida fosse nossa o que é engraçado, pois ela de fato é como um brinquedo.
— Você anda pensando demais, sabia? Acho que já está bom assim do jeito que é. E tem mais, já é tarde, estou cansada, ninguém vai a lugar algum a essa hora, só para casa.
 
Novamente silêncio. Suspiro.
Ele diminui seu passo.
Ela vai embora.
Nada mais.
É dia.

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