— O quê?
— Esses assim.
— Hum? Do que você ‘tá falando?
— Sabe, tem momentos que simplesmente
não poderiam ser desperdiçados. São nessas horas que eles acontecem. Imagine
comigo, imagine uma noite, após um dia longo. Você está em casa, ou em algum
outro lugar confortável, tranquilo, esperando nada; talvez o sono. Mas nesse
intervalo não há nada a se fazer, nada de imediato. Ah!, você está só, esqueci
de dizer. Além de não ter o que fazer, não tem com quem falar, nem uma viva
alma. O telefone não toca e você não tem pra quem ligar pois já é tarde; não
seria educado. Imagine essa cena que acabei de lhe dizer. O que você acha?
— Realmente não sei aonde você
quer chegar.
— Vamos, faça um esforço! É tão
difícil se imaginar nessa situação? Pois vou lhe dizer. Quando isso acontece,
eu sinto que tudo foi um grande desperdício, as coisas perdem o sentido; falo
das coisas banais, aquelas do cotidiano que se qualquer um parasse por alguns
minutos e se esforçasse não entenderia a lógica, nem o motivo, do por que
continuam com aquilo. Sério, não me olhe assim, prometo-te que não será tão
triste. Veja bem, são nesses momentos azuis que você invariavelmente pensa em
coisas. Coisas, sabe? Aquilo que você fez durante o dia de ontem, de hoje...
Não! Não só isso. Droga, olhe pra essa noite, ela não te instiga? Não te
alimenta um desejo autêntico, verdadeiro? Pois sempre que a vejo assim, tão
noturna, tão calada, minha vontade é de preenchê-la com algo bom. Penso em fugir. Você nunca? Vamos!, não me diga que não quer fugir agora?
— Fugir? Mas fugir pra onde? E
pra fazer o quê?
— Pouco importa! A vontade de
fugir nunca foi acompanhada de um lugar (a)final. Não conheço quem deseje fugir
para o Chile, ou para Belo Horizonte, ou pro bairro vizinho, pelo menos não
necessariamente. A vontade de fugir é órfã e nômade. Pensando bem, às vezes nem acho
que fugir seja a palavra certa. Não, não é. Tenho outra melhor agora. Não é
fugir de algo, mas a paixão de começar alguma coisa. Como se de repente a noite
fosse nossa, a vida fosse nossa – o que é engraçado, pois ela de fato é – como
um brinquedo.
— Você anda pensando
demais, sabia? Acho que já está bom assim do jeito que é. E tem mais, já é tarde, estou cansada, ninguém
vai a lugar algum a essa hora, só para casa.
Novamente silêncio. Suspiro.
Ele diminui seu passo.
Ela vai embora.
Nada mais.
Ela vai embora.
Nada mais.
É dia.

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