Eu já via constelações
de minha janela. Elas luziam através das vidraças de um arranha-céu que não
inibia o meu crepúsculo, entrecortado por prédios de mesma alcunha austera e
mentirosa que serviam apenas para trazer-me cedo mais estrelas e molduras para
o meu anoitecer. Ah, e como ele fora generoso comigo, envaideceu minha cidade, escondendo
suas rugas mais horrendas e imperfeições mais sutis. Mas, enquanto
trafegava-as, o que me inquietava?! Algo me atraiu então o olhar, agora teso. Fitava
o horizonte além d’onde concreto e aço podiam tocar, foi quando então notei,
enquanto ninguém mais o via: um espelho pairava.
Nele vi um
João-De-Barro. Num instante, pareceu, construíra de esperanças sua casa no alto
da mais alta árvore, soerguida sobre as mais profundas raízes. Nada dali via, enquanto
imerso no copado mais sombrio. Nada além de sua fornalha ali existia. Sequer
luz, nada, tudo precisara enxergar em moldes de fantasia, tudo, folhas, frutos,
estrelas, molduras... Eram minhas, dei-me conta, minhas estrelas! Estas, que
tanto já me encantaram, haviam sumido de meu céu que, naquele instante,
encobria de véu pálido minha noite antes viva, nem lágrima através de si
reluzia, então, sepultada em silêncio sobre a penumbra das luzes que a afrontavam,
ela passava, sem brilho. Estava morta e corria há tempos. Logo não havia arte a
ser imortalizada por hastes e vigas, minha natureza cotidiana era exânime, me
contara a lua enquanto vagueava. Sim, ela atreveu-se. Uma noite mais, banhada
de beleza e verdade, ela atreveu-se e, por isso, eu verdadeiramente a amava, a
amava e por sobre ela saltei. Saltei do mais alto ramo, saltei de meu ônibus enquanto,
como todos nele, nada esboçava, mas enquanto o fazia um espelho se partia, sentia.
Uma ilusão morria enquanto agora caminhava sobre os ossos da cidade que,
naquele instante, detestava enquanto meu coração me dizia: Mereces vida,
precisamos partir!



