quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Paisagem da Minha Janela


     Eu já via constelações de minha janela. Elas luziam através das vidraças de um arranha-céu que não inibia o meu crepúsculo, entrecortado por prédios de mesma alcunha austera e mentirosa que serviam apenas para trazer-me cedo mais estrelas e molduras para o meu anoitecer. Ah, e como ele fora generoso comigo, envaideceu minha cidade, escondendo suas rugas mais horrendas e imperfeições mais sutis. Mas, enquanto trafegava-as, o que me inquietava?! Algo me atraiu então o olhar, agora teso. Fitava o horizonte além d’onde concreto e aço podiam tocar, foi quando então notei, enquanto ninguém mais o via: um espelho pairava.

     Nele vi um João-De-Barro. Num instante, pareceu, construíra de esperanças sua casa no alto da mais alta árvore, soerguida sobre as mais profundas raízes. Nada dali via, enquanto imerso no copado mais sombrio. Nada além de sua fornalha ali existia. Sequer luz, nada, tudo precisara enxergar em moldes de fantasia, tudo, folhas, frutos, estrelas, molduras... Eram minhas, dei-me conta, minhas estrelas! Estas, que tanto já me encantaram, haviam sumido de meu céu que, naquele instante, encobria de véu pálido minha noite antes viva, nem lágrima através de si reluzia, então, sepultada em silêncio sobre a penumbra das luzes que a afrontavam, ela passava, sem brilho. Estava morta e corria há tempos. Logo não havia arte a ser imortalizada por hastes e vigas, minha natureza cotidiana era exânime, me contara a lua enquanto vagueava. Sim, ela atreveu-se. Uma noite mais, banhada de beleza e verdade, ela atreveu-se e, por isso, eu verdadeiramente a amava, a amava e por sobre ela saltei. Saltei do mais alto ramo, saltei de meu ônibus enquanto, como todos nele, nada esboçava, mas enquanto o fazia um espelho se partia, sentia. Uma ilusão morria enquanto agora caminhava sobre os ossos da cidade que, naquele instante, detestava enquanto meu coração me dizia: Mereces vida, precisamos partir!

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A noite que nos falta

Estória simples. Homem e mulher, um ao lado do outro, caminhando na beira da noite. A sós, cultivam um silêncio já de alguns minutos.



— Acho que são esses momentos.
— O quê?
— Esses assim.
— Hum? Do que você ‘tá falando?
— Sabe, tem momentos que simplesmente não poderiam ser desperdiçados. São nessas horas que eles acontecem. Imagine comigo, imagine uma noite, após um dia longo. Você está em casa, ou em algum outro lugar confortável, tranquilo, esperando nada; talvez o sono. Mas nesse intervalo não há nada a se fazer, nada de imediato. Ah!, você está só, esqueci de dizer. Além de não ter o que fazer, não tem com quem falar, nem uma viva alma. O telefone não toca e você não tem pra quem ligar pois já é tarde; não seria educado. Imagine essa cena que acabei de lhe dizer. O que você acha?
— Realmente não sei aonde você quer chegar.
— Vamos, faça um esforço! É tão difícil se imaginar nessa situação? Pois vou lhe dizer. Quando isso acontece, eu sinto que tudo foi um grande desperdício, as coisas perdem o sentido; falo das coisas banais, aquelas do cotidiano que se qualquer um parasse por alguns minutos e se esforçasse não entenderia a lógica, nem o motivo, do por que continuam com aquilo. Sério, não me olhe assim, prometo-te que não será tão triste. Veja bem, são nesses momentos azuis que você invariavelmente pensa em coisas. Coisas, sabe? Aquilo que você fez durante o dia de ontem, de hoje... Não! Não só isso. Droga, olhe pra essa noite, ela não te instiga? Não te alimenta um desejo autêntico, verdadeiro? Pois sempre que a vejo assim, tão noturna, tão calada, minha vontade é de preenchê-la com algo bom. Penso em fugir. Você nunca? Vamos!, não me diga que não quer fugir agora?
— Fugir? Mas fugir pra onde? E pra fazer o quê?
— Pouco importa! A vontade de fugir nunca foi acompanhada de um lugar (a)final. Não conheço quem deseje fugir para o Chile, ou para Belo Horizonte, ou pro bairro vizinho, pelo menos não necessariamente. A vontade de fugir é órfã e nômade. Pensando bem, às vezes nem acho que fugir seja a palavra certa. Não, não é. Tenho outra melhor agora. Não é fugir de algo, mas a paixão de começar alguma coisa. Como se de repente a noite fosse nossa, a vida fosse nossa o que é engraçado, pois ela de fato é como um brinquedo.
— Você anda pensando demais, sabia? Acho que já está bom assim do jeito que é. E tem mais, já é tarde, estou cansada, ninguém vai a lugar algum a essa hora, só para casa.
 
Novamente silêncio. Suspiro.
Ele diminui seu passo.
Ela vai embora.
Nada mais.
É dia.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Expectadores

Sinto que meu mal é pensar muito nos outros. Não digo com isso que sou uma boa alma que se preocupa e cuida dos semelhantes. Não, não é isso. Falo do costume de gastar as horas elaborando pensamentos acerca daquele sujeito, ou da maneira que aquela moça talvez passe seus dias, como reagiria diante de surpresas, como seria o dia de ambos, um dia comum, e como seria um dia especial, como reagiriam afinal?


Com esse pequeno costume é fácil tornar-se uma pessoa observadora, atenta e mais ou menos intuitiva — não há mistérios quanto a isso. Mas há um “porém”, um pequeno problema para quem vive de observar, que aos poucos, se não tomadas as medidas preventivas, deixa de ser pequeno e vai tomando formas cada vez maiores: esperança. Esperança no sentido de “esperar”. Quanto mais se observa os outros, e as situações, naturalmente mais expectativas são impostas a eles e paulatinamente a realidade vai demonstrando que você, meu caro, estava errado, talvez desde sempre. Toda a fé que um dia depositaste em algumas pessoas que o circundava mostrou-se incoerente, infrutífera e o único caminho que ela o levou foi o da traição. Mas escute, traição tua contigo mesmo; o outro nunca o traiu, afinal nunca lhe prometeu nada, nem podia, pois não lhe foi dada a oportunidade.

Talvez seja este o karma dos expectadores — permita-me o neologismo —, de estarem fadados ao engano, aos vários questionamentos os quais, um deles, é: “O que deixei de perceber?”. A resposta nunca é descoberta. Quando algo se furta de suas previsões, sente-se um gosto ferroso de frustração, esta que se repete e caminha ao lado da esperança — tudo bem que em certos momentos não a vemos caminharem juntas, mas se tem de reconhecer que são velhas amigas.

Expectadores vivem em dois mundos: um onde se imagina, outro em que se vive, mas não sabem qual desses deveria ser chamado de casa. Fico à vontade então para usar um trecho da poesia de Fernando Pessoa chamada "sentimental":

[...]
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira

E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

***
E o que eu quero dizendo isso tudo? Nada, foi apenas uma observação.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Aos Jovens Senis...

A vida vos trouxe cedo a experiência, não a dita "idade", saiba, eu vos tento trazer então o conforto.


     Regozije-se, és VELHO! És aquele que troca noites de dita "farra" por boas companhias (tão velhas quanto tu), boa música (porém não alta, não suportas mais tanto alarido, mesmo de teus ídolos), boas bebidas (agora sabes saborear, tens o paladar seletivo, dadivoso, mesmo tendo sido nunca antes respeitado, forçado a provar coisas que tu sequer suportavas, admita), até a fumaça intermitente de cigarros alheios, comum aos ambientes que frequentas, não te é desagradável, impregna tuas roupas, mas não tua alma, saturada de, mesmo que curtos, bons instantes. Sim, alma, amor, vida, tu falas dessas trivialidades sem contudo parecer trivial, respeitas todo sentimento que o apetece com a mais pura candura do sincero aprendiz que a nada questiona, deslumbrado, mas não porque és ingênuo, pelo contrário, és sábio, reconheceu cedo teu mundo e o abraçou, protege-o assim como as poucas verdades que crê ter encontrado durante teus escassos e longos anos de vida, estes que tendes a aproveitar durante seu alvorecer, visto que no sol enxergas acalento e na lua beleza, não calendário da soma de satélite e astro, respeitas e vê neles símbolos, signifiquem estes para tu o que bem enxergas.

     Pra ti o tempo é coadjuvante, frívolo em meio à felicidade que ensaia seu ato final, longínquo, em cada singelo momento que tens para teu âmago e para o mundo em meio às vicissitudes do cotidiano e da rotina, algo que só és capaz de vislumbrar porque tens tua sanidade plena e tua energia criadora, por isso peço-te em tom de rogo: não abdica de tua juventude. Aproveita esta fase, acresce-a a tua velhice pois hoje tens o necessário para realizar teus sonhos em um mundo que te tenta tolher esse direito, seja ele qual for. Vê o mundo se é o que preferes, mas volta a teu recante ou o reconstrói onde for, respeitando assim tua "idade". Sente-se e apenas maldiga tuas dores, mas cauteriza tuas feridas enquanto aprendes com elas. Ou até mesmo ame, mas sê sincero com quem é digno de teu amor antes que ele passe assim como tu passas, visto que é velho. De todo modo experimente, envelhece todos os dias conforme vive, e vive intensamente como só um jovem o faz, serás então pleno, creio, mas se não crês em mim, crê em Nelson Rodrigues, jornalista, dramaturgo e menino que, quando perguntado por um jornalista sobre um conselho que daria a juventude, simplesmente responde: "ENVELHEÇAM!".