segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Roda de Capoeira

     Penso que em meio a martelos, armadas, au's, existe a memória. O berimbau canta enquanto oscila, ditando o ritmo à roda enquanto o acompanham pandeiro, atabaque e outros. Dois jogadores logo agacham-se aos pés de seu mestre, pedem-no sua benção, vêem-no santo, este cujas preces ofertadas logo atende, concedendo-lhes o direito de jogo, de luta, de compreender o significado de seus próprios ritos, de enxergar a história através dos olhos daqueles que há séculos, em mesma roda, ousaram e seguem ousando: os capoeiras.



     Ousaram, no século XVI, desenvolvendo esta, travestida de dança, que lhes serviria de arma mais poderosa que o grito para ir de encontro àqueles que os oprimiam. Bonito imaginar a chama nos olhos dos negros arredios enquanto gingavam, enquanto entoavam cânticos em noite de lua cheia, enquanto grilhões e morte os espreitavam à cavalo.

     Ousaram no século XVIII quando, marginalizados, reduzidos a criminosos por uma República avessa a esta face da identidade nacional, reinventaram-na, enclausurados em quintais, foragidos agora da prisão e tortura que os afligiam, mas não sem luta.

     A história é clara quanto as razões pelas quais o capoeira ousou, mas quais razões ele tem hoje para dar continuidade a isso? Creio que não só pelo crescente reconhecimento da arte como patrimônio e pela desmarginalização da mesma, mas pela propagação de seus mais antigos vestígios, que se revelam através das palavras dos mestres, transmitidas através de gerações que há muito vem mantendo viva essa tradição outrora violento, hoje perpetuada em risos que sucedem uma rasteira, em hinos que exaltam suas lendas, traços herdados de tempos outros onde os risos eram um vislumbre e as lendas nasciam para lutar e construir um pedaço de história.

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