segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Notas de um homem qualquer


"A kind of Loving", Jack Vettriano (1951- ).

O que mais atrai numa mulher não é seu corpo. Nos homens muito se divulga a ideia de que o corpo feminino, ou a imagem da mulher, é o que agita a paixão no homem. “Os homens são atraídos pela imagem, pela visão”. Tolices. O que afeta o homem não é somente a imagem estática e infértil. Esta não se diferencia de uma estátua sem vida de mármore que, inutilmente, tem como objetivo definido pelo seu criador representar a sua musa, que é de carne e osso, ou uma fantasia real. Pelas estátuas também nos apaixonamos, mas o amor não vem do rígido corpo de pedra. A paixão surge de uma ideia. Seja na estátua, seja na mulher, ela surge de uma centelha de poesia.
Não somos atraídos pela imagem, mas pela promessa. Em cada mulher não percebemos somente um corpo, mas o seu efeito em nossas almas. Seu efeito no mundo e no clima. Existem aquelas que nos prometem uma vida frouxa, de prazeres praianos e amores ensolarados. Existem as que nos prometem elas próprias em sua autenticidade, sua simplicidade como mulheres normais que são, mas inundadas de carinho e ternura. Outras ainda nos atormentam com a ideia da incerteza, da eterna sedução que a todo o momento nos bota em prova, nos tira do eixo e nos põe a sempre duvidar de nós, sempre nos medirmos — essas são aquelas que nos aperta em incertezas e que a mim afetam mais destruidosamente. Há as novas, aquelas que repentinamente aparecem, saídas de algum lugar conhecido ou do longínquo (não importa), abrindo-nos novidades sem nexo, mas que de ímpeto nos vem a certeza de que algo é possível, não se sabe o quê, mas há este sentimento — a estas meus mais sinceros carinhos e sorrisos, pois são a chave e porta da fé de que nunca é o fim, nunca é o suficiente, há sempre mudanças.
Todas essas me atingem como se me mobilizassem. São meu percalço. De mim tiram toda energia e agradeço por isso, pois se não fossem elas, eu seria nada mais que carcaça. No meio desse labirinto de sentimentos e certezas incertas me encontro; quando não, perco-me de propósito. Ao mesmo tempo em que o inconcreto me paralisa diante de escolhas, é somente ele que me aponta caminhos.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Roda de Capoeira

     Penso que em meio a martelos, armadas, au's, existe a memória. O berimbau canta enquanto oscila, ditando o ritmo à roda enquanto o acompanham pandeiro, atabaque e outros. Dois jogadores logo agacham-se aos pés de seu mestre, pedem-no sua benção, vêem-no santo, este cujas preces ofertadas logo atende, concedendo-lhes o direito de jogo, de luta, de compreender o significado de seus próprios ritos, de enxergar a história através dos olhos daqueles que há séculos, em mesma roda, ousaram e seguem ousando: os capoeiras.



     Ousaram, no século XVI, desenvolvendo esta, travestida de dança, que lhes serviria de arma mais poderosa que o grito para ir de encontro àqueles que os oprimiam. Bonito imaginar a chama nos olhos dos negros arredios enquanto gingavam, enquanto entoavam cânticos em noite de lua cheia, enquanto grilhões e morte os espreitavam à cavalo.

     Ousaram no século XVIII quando, marginalizados, reduzidos a criminosos por uma República avessa a esta face da identidade nacional, reinventaram-na, enclausurados em quintais, foragidos agora da prisão e tortura que os afligiam, mas não sem luta.

     A história é clara quanto as razões pelas quais o capoeira ousou, mas quais razões ele tem hoje para dar continuidade a isso? Creio que não só pelo crescente reconhecimento da arte como patrimônio e pela desmarginalização da mesma, mas pela propagação de seus mais antigos vestígios, que se revelam através das palavras dos mestres, transmitidas através de gerações que há muito vem mantendo viva essa tradição outrora violento, hoje perpetuada em risos que sucedem uma rasteira, em hinos que exaltam suas lendas, traços herdados de tempos outros onde os risos eram um vislumbre e as lendas nasciam para lutar e construir um pedaço de história.

domingo, 21 de outubro de 2012

Aos leitores...

     Blog novo e, para os autores deste, experiências novas. Em decorrência disto, da efervescência ideológica que cá ocorrerá, decidi salvar este primeiro post para alguns esclarecimentos acerca de tudo que aqui será tratado: SENSAÇÕES.

     Toda experiência acarreta numa sensação, positiva ou não, e desta brota a palavra, viva, seja grito, seja sussurro, mas viva (e por razões óbvias impressa), mas o que quero dizer com isso é que todo texto aqui produzido será oriundo destas sensações particulares de cada autor, seja ela expressa na forma de mera opinião, profunda reflexão em forma de crônica ou qualquer outra expressão artística que esteja a nosso alcance. Enfim, só posso desejar agora que consigamos superar nossas próprias expectativas e, com isso, inspirar assim como fomos inspirados.